Democracia tem cor?

A luta das minorias em busca de espaços não é novidade. O discurso de negros, mulheres, indígenas, homossexuais, entre outros, são ecoados diuturnamente, porém é duro perceber que os avanços, que são inegáveis, são quase movimentos tectônicos. Durante 6 anos, fui o único parlamentar preto na Câmara Municipal de Vitória (CMV). A mesma casa também teve nesse período uma única mulher, e durante um breve momento, a suplência de outra. E não há representantes de outras minorias. Quando refiro-me a “representantes”, não trato de maneira pejorativa às pessoas que se intitulam defensores de uma bandeira, e que muito ajudam na causa, na discussão e no levante, mas refiro-me aos protagonistas dessa luta, às pessoas que sentiram e sentem na pele, dia após dia, as ações segregatórias.

Ser o único dentre os 15, mesmo sendo a população negra no Brasil a maioria, com aproximadamente 54%, e no ES sobe para 60% (IBGE 2017) só torna a responsabilidade de ser multiplicador e exemplo mais precípua do que nunca. Se fossemos aplicar uma regra de três simples, deveríamos ter 8 ou 9 vereadores pretos na CMV. E essa casa não é diferente do Congresso Nacional. Na última eleição, menos de 5% dos deputados federais eleitos se declararam negros. Nenhum da bancada capixaba. Dos 513, apenas 21, no Brasil inteiro. Dos eleitos na Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales) apenas 1, que se autodeclarou negro. Ai podem dizer; “mas é o voto”, “é a população que escolhe quem vota”.
Eu afirmo que não. O nosso sistema é, por si só, discriminatório. Discrimina negros, mulheres, LGBTQ+, indígenas, idosos, discrimina todos que não se enquadram nos padrões sociais estipulados por quem verdadeiramente comanda o país. A competição não é igualitária. Se você discorda faça o “Teste do Pescoço”. Trata-se de um exercício proposto pelos ativistas Francisco Antero e Lu Souza, para fazê-lo basta você esticar o pescoço para dentro de lugares como joalheria, hospitais particulares, bancos premiuns, lojas de griffe, etc...Veja quantos negros você encontra. Pegue uma foto de uma turma formada em medicina, por exemplo, e surpresa..... Onde está Wally? Você não vai encontrar negros, pode procurar. A população negra ali é a mosca branca.

 

É imprescindível atentar-se à falta de representatividade negra na grande mídia e na política! Esse exercício simples é revelador e vai ao encontro das estatísticas da desigualdade. Para começo de conversa, o IBGE aponta que no Brasil um negro ganha, em média, 57% do salário de um branco. 71% da população analfabeta (de acordo com um levantamento da Universidade Federal do Rio de Janeiro) é negra. Negros são apenas 0,1% dos mestres e 0,03% dos doutores no Brasil. Alguém acha que isso se dá porque os negros são mais burros que os brancos? Tratamos aqui de oportunidade. Brancos sem oportunidades também são jogados de escanteio. E tem vários casos assim, mas para a população negra essa fotografia nunca é colorida.

 

Vamos olhar por outro prisma, sobre o da violência. O mapa da violência mostra dados estarrecedores e que clarificam ainda mais o terror. Especificamente sobre homicídio de mulheres. É muito assustador ver que, por mais que o número de homicídios de mulheres brancas tenha diminuído, a soma total de homicídios cresceu, tamanho foi o aumento do número de vítimas negras. Ou seja: nem mesmo a diminuição dos casos envolvendo brancas conseguiu fazer com o total de homicídios diminuísse. Enquanto homicídios contra mulheres brancas caiu 11,9% e o de negras aumentou 19,5%, o que acarretou num aumento total de 8,8%, dados do Mapa da Violência 2015 – Homicídio de mulheres no Brasil. Já o Mapa da Violência (no estudo intitulado Homicídios e Juventude no Brasil) informou que os negros representam 71,4% das pessoas assassinadas em nosso país.
 

Há outras possibilidades de observar as desigualdades raciais: por exemplo, a violência racial, em especial a brutalidade policial com os jovens negros, fortemente pautada nos estereótipos raciais do negro como criminoso em potencial, e ainda há os estereótipos em torno das mulheres negras, que oscilam entre o confinamento no serviço doméstico e sua sexualização em torno da figura da “mulata”. Nos tribunais você verá, via de regra, os negros sentados no lugar do réu. Apenas 1,4% dos magistrados brasileiro são negros, dados do IBGE. Não estou tratando de bandidos.... marginais têm de ser presos, independente da cor. Estou falando de estereótipos criados que atrelam a figura do preto à bandidagem.

Na teoria, a Constituição Federal prevê direitos iguais a pessoas de qualquer etnia. Na prática, infelizmente a realidade ainda é outra. Precisamos falar mais sobre isso. Todos nós! Se você não sente na pele a opressão racial, logicamente você não deve querer protagonizar essa luta, mas, contribua para que ela ganhe força.

O Brasil nunca foi um lugar fácil pra ninguém, mas para alguns ele é ainda mais difícil do que para os outros.


Wanderson Marinho (PSC), é vereador de Vitória 

 

Data de Publicação: segunda-feira, 22 de abril de 2019

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